Que a história do leão Cecil nos abra os olhos para o turismo responsável

Nesta semana meu post será diferente. Não vou falar sobre minhas experiências de viagem na África, mas vou falar sobre uma reflexão que só foi possível após algumas das minhas experiências por lá. Pode até soar contraditório, mas sinto que tenho o dever de alertar pessoas como eu para que realizem seus passeios e trabalhos voluntários de forma consciente. Neste momento não sou contra e nem a favor de determinados passeios, diria que sou apenas muito preocupada…

Recentemente a mídia vem noticiando com frequência o assassinato de um leão no Zimbábue, morto por um dentista americano que pagou uma pequena fortuna por seu troféu. Mas o que muita gente não sabe é que Cecil é só mais um leão que entra para a estatística assustadora de atrocidades que a nossa espécie vem provocando mundo afora. Anualmente centenas de leões são caçados por turistas no continente africano apesar da espécie estar classificada como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais – IUCN.

Filhote de leão em um parque em Joanesburgo
Fonte: Arquivo Pessoal

Você sabia que na África do Sul, assim como em outros países africanos, a caça de alguns animais selvagens é legalizada? Você sabia que existem hoje na África mais leões em cativeiros do que leões genuinamente selvagens e livres em grandes reservas? – Em 2012 havia cerca de 3000 animais selvagens contra quase o dobro de leões em cativeiro. Você sabia que existem dezenas de fazendas criadoras de leões que abastecem uma espécie de safári de caça onde os animais enjaulados são caçados por turistas, em sua maioria estrangeiros? Você sabia que mais da metade dos turistas que patrocinam essa indústria vem dos Estados Unidos?

“Prazer”, eu me chamo Canned Hunting! Canned Hunting é uma modalidade de safári que oferece ao turista a possibilidade de caçar, matar e levar pra casa um leão como troféu para ser empalhado e decorar, com muito mau gosto, a sua mansão. Sim, mansão! Porque para levar esse prêmio paga-se algo em torno de $20.000 dólares, logo não é para qualquer um, graças a Deus. Diferente da caça “normal” (se é que alguma caça pode ser considerada normal) o leão é caçado dentro de sua própria jaula, uma grande área cercada sem qualquer chance de fuga. Esse mesmo leão foi criado desde filhote em cativeiro, sendo alimentando por seu algoz (espécie humana) até o dia em que uma bala irá pôr fim a sua vida.

Esta indústria é muito lucrativa na África do Sul e por trás de sua legalidade está um discurso que prega que caçar leões de cativeiro é uma forma de conservar a espécie que deixa de ser caçada nas grandes reservas. Além de não existir hoje qualquer evidência de que este absurdo faça sentido, a caça de um animal livre, hoje, pode custar até cinco vezes mais que a caça em cativeiro e ela continua acontecendo a pleno vapor, a exemplo do leão Cecil morto nos limites da reserva em que vivia.

Quando eu visitei a África do Sul eu não sabia de nada disso. Aliás nem eu e nem a maioria dos turistas estrangeiros…Mas foi por lá, enquanto eu pesquisava sobre o que fazer e onde eu poderia ver e interagir com leões, que eu descobri sobre o tal canned hunting e sobre a verdade acerca de alguns parques que eu pensava que possuíam um propósito ecológico e educativo.

Mas o que eu tenho a ver com isso? Eu jamais mataria um leão!

Filhote de leão no Lion Park em Joanesburgo
Fonte: Arquivo Pessoal

Pois então… lá na África do Sul há uma tendência crescente em oferecer ao turista a possibilidade de visitar leões que estão sendo criados em cativeiro com a tentadora possibilidade de interagir com seus filhotes. É claro que os defensores ferrenhos dos direitos animais já diriam, com razão e antes de mais nada, para não fazermos isso, pois estamos contribuindo de certa forma para um tipo de crueldade para com a mãe dos filhotes e com os próprios pequenos que, acostumados ao manuseio humano, dificilmente serão reintegrados a natureza selvagem. Mas os adoradores de animais menos racionais e mais emocionais (como eu!) irão adotar a lente da possibilidade educativa, da conscientização ecológica e da reprodução assistida (que é necessária sim para recuperar as populações selvagens) e irão pagar para ter esse fantástico e único momento em suas vidas. E é aí que o lobo se veste com a pele do cordeiro…Você conhece esta fábula?

Outro dia li a fábula postada por uma amiga que conta a respeito do lobo sob a pele de um cordeiro. Refleti sobre isso e lembrei-me dos parques africanos e de como ele nos atraem e nos iludem enquanto escondem uma verdade sombria…

O que você quer dizer com isso?

Com a possibilidade de gerar mais rentabilidade e sendo este um diferencial competitivo de muitos parques, eles nos oferecem a possibilidade de interagir com filhotes de leões. Para terem sempre filhotes, estes são separados de suas mães em seus primeiros dias de vida. Assim as mães logo tornam-se férteis novamente e reiniciam o ciclo reprodutivo (há até quem alugue filhotes de fazendas criadoras para oferecer como atrativo em seu parque). Mas os filhotes crescem e em pouco tempo tornam-se perigosos demais para serem acariciados e então, muitos serão vendidos. Aí que vem a ingrata surpresa: quando o próprio parque não oferece ele próprio a oportunidade de caça, ele vende estes filhotes para as fazendas de caça. Este mesmo filhote com o qual brincamos e cuidamos vai agora servir a outro tipo de turismo que se encarregará de por um fim a sua vida da forma mais cruel e injusta possível, por meio do canned hunting. E essa história vai ficando cada vez mais feia quando você descobre que as pessoas que cuidam desses pequenos e jovens leões nos parques que visitamos são voluntários estrangeiros que pagam pequenas fortunas para fazer este trabalho por semanas na África do Sul, acreditando que estão participando de algum projeto de conservação. E eu durante muito tempo sonhei com este trabalho voluntário…

Então nós, que somos atraídos com o pensamento de que estes animais serão soltos na natureza ou que servirão ao propósito da pesquisa e da conservação, nem em nosso pior pesadelo podemos imaginar que estamos ajudando a alimentar as fazendas de caça e que sim, estes animaizinhos serão libertados única e exclusivamente para serem mortos.

E agora?

São todos os parques que participam e alimentam esta indústria sangrenta? Não. Quais parques são estes? Não sei. Todos os filhotes são vendidos para fazendas de caça? Não, muitos são vendidos para propriedades privadas, criadores e zoológicos. Na dúvida como proceder? Pesquise a respeito antes de ir ou simplesmente não vá.

Existem sim muitos santuários na África como um todo e, na África do Sul, em geral, não há como ter certeza absoluta de que os parques mais famosos (que eu fui e postei aqui no blog) participam desta carnificina animal, mas por outro lado, há como ter certeza dos que não participam: em geral são aqueles em que os leões são castrados ou os que não oferecem a possibilidade de interação com o filhote como o Drakenstein Lion Park, próximo a Cidade do Cabo ou o Kevin Richardson Wildlife Sanctuary, próximo a Pretória.

Desde que voltei desta viagem venho refletindo e venho rezando para que nenhum dos dois parques em que estive estejam envolvidos com isso. Então é com a minha consciência pesada que eu deixo a minha contribuição para a campanha Blood Lions.

Divulgue você também!

Baixe aqui a cartilha da campanha.

4 comentários em “Que a história do leão Cecil nos abra os olhos para o turismo responsável

  1. Olá,
    também acho a ideia de criarem leões só pra serem caçados horrível! Mas a caça “enlatada” vem sendo bastante usada por governos como fonte de renda para a proteção das espécies. A ideia é cobrar muito dinheiro por um *ugh “troféu”, ou seja, um animal, e usar esse lucro para investir na preservação da espécie como um todo. Por muito tempo diversos países vêm regulamentando e controlando a caça esportiva por essa razão, e vem surtindo efeito, (aqui tem um link de um artigo interessante que explica melhor essa história: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2015/08/15/como-salvar-os-leoes-na-africa-cacando-dizem-conservacionistas.htm) mas o canned hunting não põe em risco a população dos animais na natureza. O problema com a prática é a criação privada e desregulada desses animais.
    É realmente necessário pesquisar sobre o parque, reserva, etc, antes de decidir fazer uma visita e checar a política do país em relação ao tema, que varia bastante. Infelizmente temos que tomar muito cuidado com nossas escolhas, e não temos toda a informação, nem a coisa toda é devidamente regulamentada pelos governos. É realmente uma pena.
    Não estou muito por dentro do assunto, mas sei que para quem tem interesse em se voluntariar para cuidar de leões por certo período existem diversos projetos relacionados a reintegrar leões em seu ambiente natural, ligadas à preservação da vida selvagem. Certeza que vale a pena procurar 😉
    Enfim, queria apenas acrescentar o que sei do assunto.
    Ah, quando viajei pra África do Sul, poucos anos atrás, acabei não visitando nenhum parque desse tipo, não tinha muita informação a respeito, e acabamos decidindo visitar uma reserva natural, fazendo safari por um grande território onde os animais se encontravam livres, e tive a oportunidade de ver vários animais de perto, inclusive uma leoa linda, que nem se encomodou com nossa presença. Nesse tipo de passeio, encontrar os animais não é garantido, e não é possível interagir com eles, mas eles estão livres, em seu habitat. Realmente indico 🙂
    ~Lena

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  2. Carla, eu também não imaginava que esses parques, aparentemente bem intencionados, escondiam uma prática tão obscura! O pior disso tudo é a manipulação e o disfarce. É aproveitar-se da boa fé de visitantes e voluntários para, no fim, financiarem com seu dinheiro ou com seu trabalho uma prática cruel, sem que eles sequer saibam que o estão fazendo! Triste e revoltante ao mesmo tempo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Este é o tipo de material q eu gostaria de ter lido antes de viajar para pelo menos fazer escolhas conscientes. Menos mal que foi antes que eu me aventurasse no trabalho voluntário. Nunca se sabe ao certo as verdadeiras intenções de algumas instituições…

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