Do Atacama ao Salar de Uyuni em tour privado

 

Desde de o início do planejamento dessa viagem, não faltou gente mencionado os perrengues que todo mundo passava para fazer a travessia da Cordilheira, do Atacama até o Salar de Uyuni.

Fui consultar a “literatura” dos viajantes e observei um senso comum de que alcançar o Salar de Uyuni era um desafio arriscado e desconfortável. Logo me imaginei como uma personagem daqueles programas de sobrevivência, passando frio em um saco de dormir e comendo enlatados enquanto meu corpo, sem banho, sucumbia à altitude.

Não é exagero! São muitos os relatos de perrengues e de problemas que acontecem com os aventureiros durante a travessia do Atacama ao Salar de Uyuni, e vice-versa.

E não é para pouco….Realmente o trajeto é semelhante a um rali para lá de selvagem. Durante boa parte do tempo não há ninguém pelo caminho. Não há estradas, mas apenas alguns rastros de pneus. Nos andes bolivianos não há placas de sinalização ou iluminação.

Caminho dos Incas
Segundo dia da travessia: trechos sem estradas!

Para fazer a travessia não basta qualquer veículo e, muito menos, qualquer condutor.  As melhores agências disponibilizam jeeps com tração nas quatro rodas, sistema de comunicação via rádio ou satélite e até mesmo cilindros de oxigênio. Ok! Alerta amarelo!!Esse não é o tipo de coisa que a gente coloca na mala do carro. Logo pensei: se ninguém nunca tivesse precisado, eles não trariam isso.

Se o cilindro de oxigênio não é trivial, preciso alerta que tampouco são as folhas de coca que compõem a bagagem “embutida” no carro… /O\

Em alguns momentos, a rota é visível, mas raramente cruzamos com carros.
Uma das várias lagunas altiplânicas.

Os poucos e esparsos povoados que encontramos pelo caminho nos remetem àquelas comunidades dos livros de história, que vivem da pecuária das lhamas e da agricultura do que quer que sobreviva à aridez dos desertos mais elevados da Terra. Tamanha precariedade – sob o ponto de vista de quem vive em metrópoles – deixa qualquer um com frio na barriga ao saber que por algumas noites você estará a centenas de quilômetros de um posto médico.

Deserto de Siloli

Durante o percurso que acontece a todo momento em elevada altitude, chegamos a cruzar os 5000 metros acima do nível do mar. Só para você ter ideia:

o acampamento base do monte Everest, no Nepal, está a aproximadamente 5300 metros de altitude.

Por essas e outras que optamos por realizar o tour privado de ida e volta do Atacama ao Uyuni.

O diferencial de um tour privado: mais segurança e conforto

Comboio ainda junto na imigração boliviana.

Percebemos que os tours regulares levam em média seis pessoas por carro, e no caso da Cordillera Traveller, agência que escolhemos , frequentemente há mais de um carro seguindo em comboio, garantindo maior segurança na travessia.

O tour privado pela Cordillera Traveller pode ser semelhante ao regular, com a mesma opção de hospedagens, nos hostels da própria empresa, ou pode incluir as hospedagens em hotéis da rede Tayka e no maravilhoso Luna Salada – o hotel de sal.

É possível realizar o tour privado com duas ou até quatro pessoas. Confesso que não tenho certeza se levam mais que isso. A vantagem é que o preço é por carro, então, quanto mais pessoas, melhor!

Não existem muitas opções de hospedagem nos andes bolivianos e é quase certo que a maioria das agências irá te hospedar em algum hotel Tayka e algum hotel de sal no entorno do Salar de Uyuni. Mas se você escolher a opção (bem) mais econômica e for com a galera, você irá se hospedar em hostels apelidados de abrigos.

Importante mencionar também que nenhuma das agências com as quais cotamos o tour particular nos permitia escolher os hotéis. Eles apenas garantem a reserva em um.

A escolha pelo tour privado mais tarde nos fez concluir que a questão vai bem além de uma escolha entre uma versão root ou uma versão nutella para uma travessia que requer cuidado e consciência de que as condições são sim extremas. E nessa hora, é preciso reconhecer as limitações individuais de saúde, preparo físico e não apenas de saldo bancário.

Entrando no deserto de sal de Uyuni

 

No tour privado não tem luxo, mas tem o mínimo necessário

A gente passa o ano inteiro ralando a beça pensando nas próximas férias e é claro que ninguém quer transformar aquele sonhado intervalo de descanso – ainda que mental – em uma sequência de perrengues.

Por isso, sem pestanejar, meus amigos e eu  escolhemos fazer o tour particular com acomodações em hotéis e não em abrigos. E isso, não significou luxo ou frescura, mas sim o mínimo necessário.

De cara, o primeiro diferencial que tivemos foi o time que formamos. Composto não apenas por nós, mas pela nossa guia chilena e nossos motoristas exclusivos. O motorista chileno se encarregou de nos guiar pelo seu país, e o boliviano, foi o capitão do nosso time, nos guiando ao longo dos quatro dias de passeio pelos andes bolivianos. Alejandro, foi na verdade bem mais que isso. O motorista boliviano foi responsável pela nossa segurança, pela nossa alimentação, pela limpeza do carro, pelo sobe e desce de mochilões e junto com nossa guia, responsável pelo roteiro, foram nossos fotógrafos no deserto de sal.

Em nosso carro, seguíamos os seis confortáveis com todas as nossas tralhas espalhadas pelo interior do veículo, e nossos mochilões dispostos no teto, pelos quatro dias.  Entre cochilos, paradas e fotografias, fiquei imaginando como estaríamos enlatados no carro lotado do tour regular. Certamente, manejar a mochila de ataque ou as câmeras não teria sido tão fácil.

Todas as bagagens estão inacessíveis.

Independente do tour escolhido, é preciso aceitar que haverá limitações a serem enfrentadas. As bagagens devem levar o mínimo possível e não estarão acessíveis ao longo de todo o dia. Para isso, a mochila de ataque deve estar conosco carregada com o essencial: casaco, roupa de banho ( para as termas), boné ou viseira, óculos, papel higiênico ou lenço umedecido, remédios, protetor solar e labial, muita água, câmeras e carregadores.

Como disse acima, com a Cordillera existem duas opções de tour privado: a econômica, com hospedagem em hostels próprios da empresa, e a que entendemos ter o melhor custo x benefício, com hospedagem em hotéis.

Em todas as versões da travessia do Atacama ao Uyuni, os custos incluem as hospedagens e as refeições – que são as mesmas no almoço, sendo diferenciais o café da manhã e o jantar.

Os almoços são bem simples, mas a comida com jeitinho caseiro foi uma surpresa agradável na maioria dos dias. Salsichas com purê e salada no primeiro dia, atum com arroz e salada no segundo, macarrão com bife, ovo e salada no terceiro, e salada de batata e cenoura com coxão de frango assado no último dia. Sempre havia uma sobremesa e garrafa de refrigerante à mesa.

Decidimos pela opção com acomodações em hotéis da rede Tayka. Nesta opção, estavam garantidos quartos com calefação, água quente, energia elétrica e wi fi.

Refeição do primeiro dia. Simples, mas deliciosa.
Refeição do último dia.

 

No final do dia, tudo o que a gente quer é uma boa cama quentinha: a rede Tayka

 

Eu não tinha qualquer expectativa com os hotéis da rede Tayka. Como não me cabia qualquer intervenção sobre onde nós dormiríamos, já que isso era responsabilidade da agência, confesso que nem sabia ao certo o que iria encontrar.

Ficamos as duas primeiras noites nos hotéis da rede Tayka. A primeira foi semi trágica e a segunda, uma maravilha. Mas calma que a culpa nem foi deles…

Acho que caiu o “D” do letreiro….

O Tayka del Desierto, fica literalmente em um deserto, o deserto de Siloli. Situado há cerca de três horas de um posto médico, em uma localidade onde nem helicópteros pousam, este é um dos hotéis de maior altitude do mundo.  A descrição pode parecer super animadora, mas dormir a uma altitude acima de 4500 metros é uma experiência que não pretendo repetir.

Ainda não sei se por desidratação severa ou pelo mal da altitude, ou se pela combinação dos dois, tive uma das piores noites da vida.  Lembrei do livro que li sobre a escalada mortal do Everest e conclui que estava com edema cerebral de tanta dor de cabeça, tontura e mal estar que senti, logo após uma consulta ao Dr. Google ( jamais perguntem sobre doença a ele!).

Minha amiga, que dividia um quarto quádruplo comigo, também passou muito mal e teve o que acredito ter sido uma hipotermia. Sorte que o Tayka del Desierto possui oxigênio para emergências, medicamentos e chás para combater o Soroche.

:: Dica de leitura: Como lidar com o mal da altitude, pelo blog Viaje na Web ::

O Tayka del Desierto é uma construção simples e até bonita com paredes de pedras vulcânicas e uma arquitetura resistente às rajadas de vento da região.  Produz energia solar para garantir um banho forte e escaldante no começo da noite, quando a temperatura lá fora marcava -10ºC, no final do verão.

A construção pequenina lá no fundo do deserto é o hotel Tayka del Desierto, a mais de 4500 metros de altitude.
Recepção equipada com cilindro de oxigênio.
Quarto amplo e cama bem equipada para o frio.
A vista para o deserto de Siloli
Os cafés da manhã da rede Tayka. Aproveitamos para embalar sanduíches para a viagem!

Os quartos são amplos, as camas enormes e macias com muitas camadas grossas de cobertores. Os banheiros são estilosos, com duchas fortes e amenidades de banho. Nos quartos, há sempre duas garrafas de água gratuitas.

Eletricidade para carregar os eletrônicos estava garantida até as 20h. Após este horário, fomos avisados que somente as luzes funcionariam, mas percebemos nossos aparelhos carregando a noite inteira.

Estrutura semelhante encontramos no Tayka de Piedra, na comunidade de São Pedro de Quemes, onde fizemos o segundo pernoite. Apenas o wi fi não estava funcionando, mas isso foi o de menos. Em altitude inferior ( 3800 m), o frio foi mais ameno e o soroche também.

Tayka de Piedra.
Camas macias e quentinhas. Tudo com calefação.
O anoitecer sobre a comunidade São Pedro de Quemes onde está o Tayka de Piedra. Vista do quarto.

Nos dois hotéis há um restaurante que serve o menu do dia. Servido às 19h, o jantar tem uma sopa de entrada, um prato principal bem saboroso e sobremesa. As bebidas no jantar devem ser pagas à parte.

O café da manhã, nos dois hotéis, é simples mas satisfatório: pão de fabricação deles, alguns frios, ovos mexidos à pedido, suco, café e algumas frutas.

Como almoçávamos nos hostels da Cordillera Traveller, a comparação com os abrigos foi inevitável. Mas nesse caso, deixo as fotos falarem por si!

Um dos hostels da Cordillera Traveller. Almoçamos nas diferentes instalações da Cordillera todos os dias, exceto no segundo.
Quarto de um dos hostels da Cordillera. Sem calefação e sem camadas grossas de cobertores. Esse é o padrão.
Banheiros nos hostels não estão nas melhores condições. A água nem sempre esquenta. Pode faltar inclusive! Notamos que em alguns, o banheiro era unissex. Além disso, nesse aqui, no momento da foto, fazia bastante frio!

 

 

 

 

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26 comentários em “Do Atacama ao Salar de Uyuni em tour privado

  1. Olá, pessoal! Estou indo para o Atacama em novembro e pretendo fazer o Salar Uyuni também. Pretendo fazer o Uyuni de 12 a 15 de novembro. Estou indo sozinha. Alguém tem interesse em dividir essa experiência? Alguém anima?

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  2. Olá! Eu e meu marido vamos a San Pedro do Atacama em outubro agora. Pretendemos fazer a travessia do Salar de Uyuni. Fiquei interessada no tour privado, a dúvida é, será que conseguiríamos algum casal disposto a dividir o passeio? Isso é comum de ver? Penso que o preço ficaria mais atrativo. Obrigada!!

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    1. Olá! Td bem? Eu estarei no Atacama em novembro e tenho interesse em ir ao Salar Uyuni. A viagem de vocês já está marcada? Já compraram passagens e tudo? Eu toparia fazer esse tour privado… também estou em busca de pessoas com esse interesse, mas só consigo fazer o Salar no período de 12 a 15 de novembro.

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    2. Oi!!! Vocês vão em outubro mesmo? já compraram passagem e tudo? eu estarei lá em novembro… não tenho como mudar a data… tenho interesse em dividir tour privado…. qlq coisa me retorne…

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  3. Adorei o post e saber da opção de tour menos sofrido pelo Uyuni. Você consegue dar uma base de custos? Eu estou indo pra lá em setembro, e queria mesmo comparar as opções, pra saber se consigo ($) fazer o tour privado, ou se vou na opção ‘todo mundo apertado’ haha Beijinhos

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    1. Oi, Kécia! Td bem? Já estamos em Setembro! Vc conseguiu ir ou irá ainda ao Atacama e ao Salar? Eu estarei no Atacama em novembro e tenho interesse em ir ao Salar Uyuni. A viagem de vocês já está marcada? Já compraram passagens e tudo? Eu toparia fazer esse tour privado… também estou em busca de pessoas com esse interesse, mas só consigo fazer o Salar no período de 12 a 15 de novembro.

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  4. Sou louca para fazer esse passeio! quantas fotos lindas! Apesar de adorar viajar sozinha, também não arriscaria fazer por conta própria e me perder no meio do deserto. 😛

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  5. Conhecer esse deserto e fazer essa rota deve ser um sonho, queria muito conhece, ainda estou estudante um pouco sobre o local, seu post desta bem detalhado vou guardar para consultar antes de ir para lá.

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  6. Que aventura! Adorei saber que tem opção de um tour menos “perrengue”.. porque férias né.. como você disse nem sempre estamos com disposição pra sofrer nas férias.. vou aguardar o próximo post!

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  7. Estive no Deserto do Atacama no mês passado e adorei. Queria muito ter feito esse tour até ao Sala de Uyuni, mas não deu. Adorei saber mais sobre esse passeio, quem sabe na próxima vez. Bjs

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